O futebol feminino brasileiro vive um momento de expansão acelerada, com campeonatos estaduais e nacionais ganhando mais visibilidade e competitividade a cada temporada. Enquanto o Brasileirão Feminino e a Libertadores Feminina atraem holofotes, os torneios regionais funcionam como verdadeiros laboratórios para revelar talentos e testar esquemas táticos. Em 2026, o Campeonato Paulista Feminino, por exemplo, chega à sua 30ª edição com 16 equipes e um calendário que se estende por cinco meses, oferecendo uma estrutura profissional que muitos clubes masculinos ainda não conseguem igualar. Esses campeonatos não são apenas vitrines para atletas, mas também termômetros da evolução técnica e organizacional do esporte, com resultados que muitas vezes surpreendem até os analistas mais experientes.
Calendário e formato dos principais campeonatos femininos em 2026
O Campeonato Paulista Feminino de 2026 começou em fevereiro e segue até julho, com uma pausa estratégica durante a Copa do Mundo Feminina, que será realizada na Austrália e Nova Zelândia. As 16 equipes estão divididas em dois grupos de oito, onde se enfrentam em turno e returno. Os quatro primeiros de cada chave avançam para as quartas de final, em jogos de ida e volta, enquanto os dois últimos de cada grupo disputam um quadrangular de rebaixamento. Essa fórmula, adotada desde 2022, aumentou a competitividade e reduziu as goleadas, com uma média de 2,8 gols por partida na última edição, contra 3,5 em 2020. O torneio ainda reserva uma novidade: a transmissão de todos os jogos da fase final em canais abertos, uma demanda antiga das torcidas.
No Nordeste, o Campeonato Pernambucano Feminino adotou um formato mais enxuto, com oito equipes e fase única, mas com a exigência de que cada clube mantenha ao menos 15 atletas com contrato profissional. Essa regra, inspirada no modelo paulista, tem pressionado os clubes a profissionalizarem suas categorias de base, com times como Sport e Náutico criando centros de treinamento exclusivos para mulheres. Já o Campeonato Carioca Feminino, que em 2026 terá Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo como principais forças, introduziu uma inovação: a possibilidade de substituições ilimitadas durante os 90 minutos, uma adaptação às condições climáticas do Rio que tem sido elogiada pelas comissões técnicas.
Clubes que dominam as competições estaduais e suas estratégias
Corinthians e São Paulo formam a dupla hegemônica no futebol feminino paulista, mas com abordagens distintas. O Corinthians, bicampeão da Libertadores Feminina, investe em um elenco enxuto e técnico, com 22 atletas profissionais e uma média de 25 anos. O time alvinegro prioriza a posse de bola e a pressão alta após perda, um estilo que rendeu 78% de aproveitamento nos jogos do Paulistão 2025. Já o São Paulo, que contratou a técnica sueca Pia Sundhage em 2024, aposta em um plantel mais jovem, com 12 jogadoras sub-20, e em um jogo mais vertical, explorando a velocidade das laterais. Essa diferença tática ficou evidente no clássico de março de 2026, quando o São Paulo venceu por 3 a 2 em um jogo com 14 finalizações a gol, contra apenas 6 do Corinthians.
No Rio de Janeiro, o Flamengo se consolidou como o clube mais organizado, com um centro de treinamento em Vargem Grande que inclui fisioterapia, nutrição e psicologia esportiva. O time rubro-negro, que em 2025 contratou a meia Marta para ser embaixadora, também se destaca pela parceria com escolas públicas, onde realiza peneiras semanais. Essa estrutura permitiu ao Flamengo vencer o Carioca Feminino de 2025 com 100% de aproveitamento, algo inédito na história do torneio. Enquanto isso, o Internacional, no Rio Grande do Sul, usa o Gauchão Feminino como laboratório para sua equipe principal, promovendo atletas da base como a atacante Gabi Zanotti, artilheira do torneio em 2025 com 12 gols.
Revelações e artilheiras dos torneios regionais
A terceira rodada do Campeonato Paulista Feminino 2026 já revelou nomes que prometem agitar o cenário nacional. A atacante Ana Luiza, de 18 anos, do Santos, marcou três gols nos dois primeiros jogos, chamando a atenção pela capacidade de finalização com ambos os pés. Ela é uma das 15 atletas sub-20 que disputam o torneio, um número recorde e que reflete o investimento dos clubes em categorias de base. Outra jovem em destaque é a meia Julia Bianchi, do Palmeiras, que aos 19 anos já acumula passes decisivos em 40% dos jogos que disputa, uma média superior à de muitas jogadoras da seleção brasileira. Essas revelações não são exclusividade de São Paulo: no Campeonato Mineiro Feminino, a lateral-direita Leticia Santos, de 17 anos, do Atlético Mineiro, tem sido fundamental nas jogadas ofensivas do time, com três assistências em quatro partidas.

Entre as artilheiras, o destaque fica para a veterana Cristiane, que aos 38 anos lidera a artilharia do Campeonato Paulista 2026 com cinco gols. A atacante, que voltou ao São José após passagem pelo Santos, tem mostrado que a experiência ainda faz diferença, especialmente em cobranças de pênalti, onde converteu 100% das suas tentativas na temporada. No Nordeste, a atacante Duda, do Sport, é a principal referência ofensiva, com sete gols em seis jogos no Pernambucano Feminino. Duda, que também atua como ponta-esquerda, tem um aproveitamento de 22% em finalizações, um índice alto para uma jogadora que não é centroavante. Esses números mostram que os campeonatos regionais não são apenas vitrines para jovens, mas também palcos para veteranas que ainda têm muito a oferecer.
Transmissão e audiência: como os campeonatos femininos ganham espaço
O Campeonato Paulista Feminino de 2026 é o primeiro a ter todos os jogos da fase final transmitidos em TV aberta, uma conquista que resultou de negociações entre a Federação Paulista de Futebol e a Rede Globo. A decisão veio após o sucesso da transmissão da final da Libertadores Feminina de 2025, que alcançou 1,2 milhão de espectadores, um recorde para o futebol feminino na TV brasileira. Além da televisão, as plataformas de streaming têm desempenhado um papel crucial na popularização dos torneios. O Paulistão Feminino, por exemplo, é transmitido ao vivo pelo YouTube da FPF, com uma média de 50 mil visualizações por partida, enquanto o Campeonato Carioca Feminino tem seus jogos exibidos no canal do Flamengo no Twitch, onde atrai até 30 mil espectadores simultâneos.
Os números de audiência refletem um crescimento consistente, mas ainda desigual entre as regiões. Enquanto o Paulistão Feminino registrou um aumento de 40% no público presencial em 2025, com média de 1.200 torcedores por jogo, o Campeonato Gaúcho Feminino ainda luta para superar a marca de 500 espectadores. Uma das estratégias para reverter esse cenário tem sido a integração com os times masculinos: o Internacional, por exemplo, passou a oferecer ingressos combinados para jogos do Gauchão Feminino e do Campeonato Brasileiro masculino, o que aumentou em 25% a presença de público nos jogos das mulheres. Outra iniciativa bem-sucedida foi a criação de pacotes familiares, com descontos para crianças e idosos, adotada pelo Corinthians no Paulistão Feminino.
Desafios logísticos e financeiros dos campeonatos femininos
Apesar do crescimento, os campeonatos femininos ainda enfrentam obstáculos que vão além do campo. A logística das viagens é um dos principais desafios, especialmente em torneios como o Campeonato Brasileiro Feminino A2, onde equipes do Norte e Nordeste precisam percorrer mais de 3 mil quilômetros para enfrentar times do Sul e Sudeste. Em 2025, o Iranduba, do Amazonas, gastou R$ 120 mil apenas com deslocamentos, um valor que representa 30% do orçamento anual do clube. Para amenizar o problema, a CBF passou a oferecer auxílio financeiro para as equipes, mas o valor, de R$ 5 mil por viagem, ainda é insuficiente para cobrir os custos de passagens aéreas e hospedagem.

Outro ponto crítico é a disparidade salarial entre os elencos. Enquanto jogadoras do Corinthians e São Paulo recebem salários que variam entre R$ 10 mil e R$ 25 mil mensais, atletas de times menores, como o Real Ariquemes, de Rondônia, ganham cerca de R$ 1.500. Essa diferença se reflete na rotina das jogadoras: muitas precisam conciliar o futebol com outros empregos, o que impacta diretamente no desempenho. O Santos, por exemplo, foi um dos primeiros clubes a oferecer contratos de trabalho exclusivos para suas atletas, uma prática que tem se espalhado, mas ainda está longe de ser regra. Além disso, a falta de patrocínios específicos para o futebol feminino faz com que muitos clubes dependam de verbas públicas ou de repasses dos times masculinos, o que limita os investimentos em estrutura e salários.
O impacto dos campeonatos femininos na seleção brasileira
Os campeonatos regionais têm sido fundamentais para a renovação da seleção brasileira feminina, que em 2026 busca se recuperar do desempenho abaixo do esperado na Copa do Mundo de 2023. Das 23 jogadoras convocadas para a última janela de amistosos, 14 atuavam em clubes brasileiros, um número que não era visto desde 2019. O Campeonato Paulista Feminino, em particular, tem sido uma fonte constante de talentos: das 11 titulares da seleção na última partida contra a Argentina, seis eram de times paulistas. A lateral-esquerda Tamires, do Corinthians, e a meia Duda Sampaio, do São Paulo, são exemplos de atletas que se destacaram primeiro nos torneios estaduais antes de ganharem espaço na equipe nacional.
A relação entre os campeonatos e a seleção também se reflete nos esquemas táticos. O técnico Arthur Elias, que assumiu o comando da seleção em 2024, tem adotado um estilo de jogo semelhante ao do Corinthians, com posse de bola e pressão alta, uma influência direta do sucesso do time alvinegro no Paulistão Feminino. Além disso, a CBF passou a monitorar de perto os torneios regionais, com analistas de desempenho acompanhando jogos ao vivo e por vídeo. Em 2025, a confederação criou um banco de dados com estatísticas de todas as jogadoras que disputam os campeonatos estaduais, uma ferramenta que tem ajudado na identificação de talentos e na análise de adversárias. Essa integração entre clubes e seleção tem sido apontada como um dos fatores que podem levar o Brasil de volta ao topo do futebol feminino mundial nos próximos anos.
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